• Angelo Tribuzy

A Música Ibérica do Séc. XVII

Atualizado: 4 de Jun de 2020

A música espanhola do século XVII é praticamente desconhecida. Na Espanha, território da Península Ibérica, assim como Portugal, Andorra e uma região britânica, Gibraltar, era uma época de grande proliferação de formas e de estilos, mas o pouco publicado não é suficiente para que o historiador possa formar uma ideia adequada do que foi a música Ibérica daquela época.



O repertório musical da Espanha daquele período

Uns manuscritos intitulados “Romances y Letras A Tres Vozes”, por Miguel Querol Gavaldá, podem ser o que se tem de mais perto para entender como seria a música do século XVII. As melodias independentes das três vozes e a harmonia apresentada são de característica barroca. Nesses manuscritos apresenta-se a predominância de temas religiosos, morais e históricos sobre os demais, o que faz pensar que esse repertório era executado em ambientes religiosos, o que condiz com a historicidade do período. O gosto pelos romances de temas históricos pode ser uma prova de que as canções são do início do séc. XVII, já que, à medida que se avança nele, vai-se perdendo a predileção pelos romances.

Romances históricos


Em algumas letras de canções tiradas da transcrição e do estudo aparecem menções ao último rei visigodo de Espanha, Don Rodrigo, como na letra de "A una peña tosca y fría" (Em uma pedra áspera e fria), quando o ouvinte é colocado diante de uma lápide e escuta: "el que ayer fue rey de España/y oy está en duda de serlo./Tened, sueño, respeto,/que aun no dexo de ser rey,/passo, que duermo" (aquele que ontem foi rei de Espanha, e hoje está em dúvida de sê-lo./Tenha, sonho, respeito,/ que todavia não deixei de ser rei,/passo, que durmo).


Os períodos de guerra vividos pelo povo até esse período aparecem também em várias canções. Temos, como por exemplo, a destruição de Cartago cantada em ”Las vozes del fuego" (As vozes do fogo) - "Guerra, guerra a fuego y sangre,/alarma gritan, y los muros se arden" (Guerra, guerra com fogo e sangue,/gritam alarme e os muros se incendeiam).

Em “Las reliquias de la noche” (As relíquias da noite) aparece um nome, Albanio, um personagem do poeta Espanhol Garcilaso de la Vega. Albanio refere-se a Fernando Alvarez de Toledo y Pimentel, o 3º Duque de Alba, militar e político castelhano que se notabilizou em várias campanhas militares, primeiro a serviço de Carlos V e, depois, de Felipe II de Espanha.

Sentimento religioso, Temas Morais e Psicológicos


O sentimento religioso é também bastante presente na figura do menino Jesus, por exemplo, nos versos de “No lloréys, Dios” (Não chore, Deus) - "Si por ser niño lloráys,/porque soys Dios, no lloráys" (se por ser criança choras, porque és Deus, não chore) - ou na imagem de Maria, na canção Soberana Maria. Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, era muito popular na Espanha daquele século e aparece nas estrofes de várias letras. Sua figura faz-se presente em várias canções, como "Ignacio, es tan bella/tu alma y resplandeze,/que se le pareze,/que Dios mora en ella" (Ignácio, é tão bela/sua alma e resplandece,/que parece/que Deus habita nela).

Temas morais e psicológicos estão presentes nos manuscritos em letras, como “El tardo buey” (O lento boi), “¡O lágrimas!” (Oh! Lágrimas) e “Más negra que mi muerte” (Mais negra que mina morte).

Não chore, Deus!

Abaixo, segue a letra e a tradução de uma das 73 canções do estudo de Miguel Querol. Ela tem como tema o nascimento de Jesus e o incômodo que as pessoas daquela época tinham diante dessa imagem de menino Jesus, que era menino, mas, também, Deus.


No lloréys, Dios, que enturbiáis

Não chore, Deus, que turvas

los ojos com que me veys.

os olhos com que me vês.

Mas, llorad, que, pues nazéis,

Mas, chore que, porque nasceste,

a más que esto os obligáys.

por mais que isto te obrigue.

No derraméys mi tesoro

Não derrame meu tesouro

en perlas, pues vale una

em pérolas, porque uma vale

más que quanto vee la luna

mais quanto ver a lua

y quanto enriqueze el oro.

e quanto enriquece o ouro.

Si por ser niño lloráys,

Se por ser menino choras,

porque soys Dios, no lloráys.

porque és Deus, não chore.


Agradecimentos ao trio vocal Terrae Mundi por ceder os estudos desses manuscritos.


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