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8 de março: que a memória e o compromisso pesem mais que a homenagem

  • Foto do escritor: Arte Ao Redor
    Arte Ao Redor
  • há 16 horas
  • 6 min de leitura

O 8 de março não deve ser reduzido a um repertório de frases prontas, flores compradas às pressas ou homenagens protocolares. A data carrega uma história marcada por conflitos, reivindicações e transformações sociais; por isso, mais do que gestos simbólicos, ela convoca consciência histórica, memória ativa e disposição para enfrentar questões que continuam presentes.


Falar sobre o Dia Internacional da Mulher implica reconhecer que a experiência feminina sempre esteve atravessada por relações de poder — no trabalho, na vida doméstica, no espaço público, nas formas de linguagem, nas estruturas legais e até nos vínculos afetivos. Nesse contexto, a cultura assume um papel decisivo. Muitas vezes é por meio da arte que mulheres conseguem converter experiências de dor em linguagem, transformar o medo em gesto expressivo e dar forma pública a silêncios que antes pareciam inevitáveis.


A própria data se consolidou ao longo do século XX, ligada às mobilizações feministas e trabalhistas, até ser oficialmente reconhecida pela ONU em 1975. O que ela exige hoje, porém, é uma atenção concreta que vá além de solenidades ou cerimônias formais.


No Brasil, essa atenção precisa lidar com dados que não permitem abstração confortável. Entre 2015 e 2025, mais de 13 mil mulheres foram vítimas de feminicídio, segundo levantamentos institucionais. Apenas em 2024 foram registradas 1.459 mortes. São números duros demais para caber em discursos decorativos. Eles exigem respostas institucionais, responsabilidade coletiva e uma memória que funcione como compromisso real, não como ritual passageiro.


Mulheres nas artes: quando viver também é criar


Qualquer tentativa honesta de compreender o Brasil passa por olhar para as periferias sem exotização nem paternalismo. Em muitos desses territórios, a continuidade da vida comunitária depende de mulheres que administram rotinas complexas com recursos escassos. Na maioria das vezes, são elas que articulam alimentação, renda, cuidado familiar, deslocamentos, saúde, rituais de luto e celebração e que, mesmo diante dessas responsabilidades, continuam produzindo arte. Trata-se de uma produção cultural viva, nascida menos do conforto material e mais da urgência, da criatividade e da capacidade de invenção.


Essa vitalidade se manifesta em linguagens diversas: no samba, no funk, no slam, no passinho, no grafite, no teatro de rua e em múltiplas formas de dança e expressão que emergem dos bairros e das quadras como afirmação coletiva. Em muitos contextos, a arte cumpre funções que ultrapassam a estética: oferece abrigo simbólico, aprendizado e possibilidades de permanência.


Ainda assim, é necessário evitar qualquer romantização da precariedade. Uma parcela significativa do funcionamento social do país depende de um trabalho imenso, muitas vezes invisível e mal remunerado, realizado em grande parte por mulheres. Reconhecer esse fato é apenas o primeiro passo; valorizá-lo de maneira concreta, com crédito, remuneração justa e apoio institucional, constitui uma exigência ética.


Durante muito tempo, a produção artística das mulheres foi tratada de maneira restritiva, como se estivesse confinada ao terreno da confissão pessoal, do íntimo ou de um suposto “tema feminino”. Essa leitura reduz a complexidade da experiência de ser mulher e ignora a capacidade da arte de ultrapassar limites impostos por convenções culturais.


No Brasil, diversas artistas demonstraram, na prática, o quanto essa redução é inadequada. Carolina Maria de Jesus registrou a fome e a precariedade sem suavizar a realidade das favelas, obrigando o país a encarar aquilo que frequentemente preferia ignorar. Elza Soares transformou a própria voz em instrumento de resistência, sobrevivência e reinvenção artística. Já Conceição Evaristo mostrou, com precisão literária, que memória não é apenas recordação do passado: é também disputa de narrativa e afirmação de presença.


Essas trajetórias não se explicam apenas pela ideia de superação individual. Há algo mais profundo em jogo: a capacidade de criar linguagem justamente nos lugares onde se tentou impor silêncio ou apagamento. Quando isso acontece, a arte deixa de ser mero adorno cultural e passa a reorganizar a maneira como a sociedade se percebe.


Também recai sobre muitas mulheres artistas uma expectativa desigual. Com frequência espera-se que sejam excepcionais e, ao mesmo tempo, representem todas as outras. Aos homens costuma ser concedido o privilégio de serem lidos como indivíduos singulares; às mulheres, muitas vezes, resta o papel de símbolo coletivo. Reconhecer esse desequilíbrio também faz parte de uma crítica cultural séria.


Mulheres na política: falar ainda tem custo


Se a arte pode oferecer um espaço de expressão, a política é o campo onde essa expressão se torna mais visível e, por isso mesmo, frequentemente mais contestada. Quando uma mulher ocupa posições de poder e se manifesta com firmeza, a reação costuma aparecer de forma rápida com desqualificação pública, ironias, ataques e ameaças.


A participação feminina na política brasileira ainda se configura como uma conquista em disputa permanente. O problema não se limita à divergência de ideias, algo esperado em regimes democráticos. Em muitos casos, o que se observa é violência direta ou indireta dirigida às mulheres que entram nesse espaço. E essa hostilidade tende a se intensificar quando se trata de mulheres negras, periféricas, indígenas, mães solo ou pertencentes a grupos dissidentes, revelando com maior nitidez as desigualdades estruturais presentes na sociedade.


Lembrar o 8 de março, portanto, também significa lembrar que democracia não se sustenta apenas em princípios abstratos, mas depende de garantias institucionais, de redes de proteção e de participação efetiva. Em muitos territórios, são mulheres atuando em associações, coletivos, movimentos sociais e organizações de bairro que mantêm vivo o trabalho cotidiano de recompor laços sociais que o próprio Estado, muitas vezes, não consegue preservar.



Violência de gênero: uma realidade estrutural


A violência de gênero raramente se apresenta de forma abrupta desde o início. Em muitos casos, ela se estabelece gradualmente com controle excessivo, humilhação constante, vigilância, isolamento social e ameaças veladas. Com o tempo, o que antes parecia apenas insinuado se transforma em agressão explícita.


No Brasil, os dados continuam alarmantes. Em 2024 foram registrados 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Esse número não revela apenas crimes individuais; ele aponta para uma cultura que, em diferentes níveis, ainda banaliza o sofrimento, silencia vítimas e normaliza formas de abuso. Nesse cenário, manifestações culturais não resolvem todos os problemas, seria ilusório pensar assim, mas pode desempenhar um papel importante. Obras artísticas têm a capacidade de nomear experiências antes difusas, abrir conversas que antes pareciam impossíveis e oferecer referências para reconhecer situações de violência. Em alguns casos, um livro, um filme ou uma canção pode ser a primeira brecha de compreensão para quem ainda tenta entender o que está vivendo.


Diante de qualquer suspeita de violência, a minimização do problema pode agravar riscos. Escutar com seriedade, acolher sem julgamento e ajudar a construir caminhos seguros de proteção pode fazer diferença real.


Canais de apoio no Brasil

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher (24h)

  • Disque 100 — denúncias de violações de direitos humanos (24h)

  • Em caso de risco imediato, ligue 190


O papel da cultura nesse cenário


O valor simbólico do 8 de março só se sustenta quando encontra práticas concretas. Essas práticas nem sempre começam com grandes gestos; muitas vezes se formam a partir de decisões cotidianas e persistentes. Entre elas estão atitudes como remunerar adequadamente o trabalho de mulheres, garantir reconhecimento claro de autoria e participação, apoiar projetos culturais liderados por mulheres e consumir suas produções com interesse genuíno e não apenas por conveniência de calendário. Também passa por interromper comentários ou piadas que reforçam humilhações e por fortalecer iniciativas culturais locais, editoras independentes, coletivos artísticos e espaços formativos.


Criar ambientes de escuta e de fala seguros pode parecer uma ação simples, mas sua força está justamente na repetição cotidiana. Cuidado também é prática política e cultura também envolve responsabilidade pública.


O 8 de março lembra que muitas vozes foram historicamente silenciadas. Cada vez que uma mulher escreve, canta, dança, organiza, denuncia, ensina ou cria, algo se altera no espaço comum. Na arte, essa transformação pode surgir em um poema que oferece amparo, numa canção que denuncia injustiças, numa cena teatral que perturba certezas ou numa fotografia que restitui dignidade a corpos frequentemente marcados pela violência do olhar social. Na vida pública, pode se manifestar como liderança, mobilização ou resistência cotidiana. Em qualquer desses casos, trata-se de presença.


Que o 8 de março, portanto, não permaneça na superfície das homenagens formais. Que funcione, sim, como um convite mais profundo à escuta, à lucidez e ao compromisso com a mudança. Porque cultura não se resume ao que consumimos para passar o tempo. Ela também é uma das formas que encontramos para enfrentar o mundo sem nos tornarmos indiferentes a ele.

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