• Angelo Tribuzy

Richard Wagner: O drama lírico wagneriano

Atualizado: 26 de Ago de 2020

A orquestra é a sua linguagem natural e dava à obra de Wagner um colorido especial.
Perfil de Richard Wagner
Richard Wagner

Richard Wagner é um dos principais personagens da história da música. Suas obras marcaram o início de novas concepções musicais que são responsáveis por grande parte de nossa música hoje. O drama lírico wagneriano abandona as características das óperas passadas. A voz passa a ser um dos instrumentos de sua gigantesca orquestra, e a ópera é transformada em uma grande sinfonia.


Em seu drama musical, o espectador não precisa, necessariamente, ater-se ao texto cantado, mas pode simplesmente ouvir e entender todo o drama por meio da orquestra, que narra toda a história através de seus temas. Quanto ao desenvolvimento musical, "Tristão e Isolda" tem um papel muito importante, pois é nessa obra que Wagner se mostra o herdeiro do grande e autêntico romantismo alemão. Porém, com a quase destruição do sistema tonal, anuncia, ao mesmo tempo, a música moderna.

A difícil cronologia das óperas de Wagner

Até hoje existem certas incompreensões devido à confusão cronológica das óperas de Wagner. Isso ocorre, pois elas não foram representadas e publicadas na mesma ordem em que foram escritas.


A primeira significativa obra de Wagner foi "Rienzi, o Último dos Tribunos" (Rienzi, der letze der Tribunen, 1838 - 1840), retirada do romance histórico de Bulwer. Nesta obra já se nota o domínio da arte dramática e da sonoridade orquestral. A liberdade na orquestração e na condução de massas é admirável. É o início da futura técnica do leitmotiv, sobre a qual falaremos mais adiante.


Um progresso decisivo leva Wagner a compor "O Navio Fantasma ou o Holandês Errante" (Der Fliegende Holländer, 1841). Essa ópera ainda apresenta um sentido tradicional, com árias italianas e coros à maneira de Auber, contudo, os personagens do holandês e de Senta são personagens dramáticos no estilo da grande tragédia. O ritmo musical já é o da linguagem falada, e a orquestra transforma a ópera inteira numa grande sinfonia do mar. Pela primeira vez Wagner empregou o leitmotiv. A ópera foi bem recebida pelo público.


Sua seguinte obra, "Tannhäuser" (Tannhäuser oder Der Sängerkrieg auf der Wartburg, 1843-1845), não obteve o triunfo esperado, mas não houve também tanta resistência, pois ainda era uma ópera com árias, recitativos e marchas. O público possivelmente estranhou a mistura confusa de paixão erótica e contrição religiosa e, também, as inéditas artes da orquestração.


Apesar de "Lohengrin" (1846-1848) ainda estar na fase de transição das obras de Wagner, já não se reconhece nela toda a rotina da ópera. Este é o primeiro drama musical de Wagner, uma autêntica tragédia psicológica. Depois de "Lohengrin", Wagner escreveu "O Ouro do Reno" (Rheingold, 1853-1854) e, posteriormente, "A Walkyria" (Der Walkuere, 1854-1856), na qual se percebe a luta íntima entre as ideias revolucionárias de ateísmo assombroso e a filosofia pessimista. Dessa tensão nasceu a grande tragédia, com uma música que parecia muito "moderna" aos contemporâneos.


Em 1856, Wagner começou a terceira parte da Tetralogia "Siegfried", mas interrompeu seu trabalho. Apaixonado, escreveu "Cinco Lieds a Mathilde Wesendonck" que são a base de "Tristão e Isolda" (Tristan uns Isolde, 1857-1859). "Tristão e Isolda" é uma tragédia de amor, com poucos personagens e enredo de simplicidade grega. Nesta obra, toda forma tradicional de ópera é abandonada. Musicalmente é a mais expressiva escrita por Wagner.


Como se estivesse assustado com sua própria audácia, pois estava prestes a derrubar o sistema tonal Bach-Rameau, Wagner apoiou-se novamente na polifonia escrevendo "Os Mestres Cantores de Nüremberg" (Die Meistersinger von Nürnberg, 1862-1867), a sua única ópera cômica que satirizava seus críticos. Wagner então retoma seu trabalho em "Siegfried" (1856 - 1871), com uma música mais conservadora e uma temática romântica: a juventude do herói. A última parte da Tetralogia de Wagner é o "Crepúsculo dos Deuses" (Götterdämmerung, 1860 - 1874), a tragédia do fim apocalíptico do antigo mundo germânico.


Sua última obra foi "Parsifal" (1877 - 1882), música sacra, modelo perfeito de Oratório, destinada ao teatro. As grandes cenas instrumentais, também utilizadas na Tetralogia, aparecem com notável desenvolvimento. "Parsifal" está longe do tipo corrente de ópera. O próprio Wagner chamou-a de "festival sagrado" e não de “drama lírico”, e assim foi concebida a maior parte de sua música.


A orquestra como elemento decisivo no drama lírico Wagneriano


O manejo orquestral realizado por Wagner era admirável e utilizava os instrumentos em seus registros apropriados de acordo com a finalidade. O drama wagneriano é baseado principalmente no leitmotiv.


O leitmotiv, ou motivo condutor, que aparece nas óperas de Wagner, foi concebido como uma nova forma de expressão artística que fornecia a cada personagem ações, ideias e sentimentos caracterizantes através de uma pequena frase musical, o tema. Esse princípio foi aplicado e generalizado pelo alto poder de realização e extraordinário talento artístico daquele que melhor o compreendeu. O leitmotiv de Wagner torna-se, às vezes, quase irreconhecível por causa de combinações harmônicas e orquestrais muito complexas, porém faz com que a orquestra seja um elemento decisivo em seus dramas musicais.


Segundo Wagner, não era possível fazer um drama musical sem alguns temas melódicos curtos, mas que por serem bem caracterizados, formariam a base daquele drama. Esses temas deveriam ser a expressão do sentimento e não um simples rótulo de personagens. Para dar continuidade à ação, ao leitmotiv aplicavam-se as palavras cantadas, formando uma declamação que, exceto nos momentos de exaltação, era feita em contraponto com o tema orquestral, que é o que realmente explica o drama. Assim, a voz deixa de ser a "Rainha" no drama lírico e passa a ser um dos componentes de sua grande orquestra. Os coros e conjuntos também têm um papel ativo e pessoal na ação das peças.


Além do leitmotiv, o drama de Wagner em sua estrutura geral também depende da paisagem como detalhe pitoresco e como elemento dramático. A tonalidade musical produz os contrastes de luz e sombra, de alegria e de tristeza.


Os temas são sempre destacados com clareza através dos coloridos dos timbres, fortes ou fracos, a qualquer momento e com qualquer sonoridade. Para as cordas existem passagens dificílimas, principalmente para as harpas. Os instrumentos de metal são divididos em quatro grupos: trompas, tubas, trompetes (inclusive o trompete grave) e trombones. Com esses grupos, Wagner consegue contrastes diversos, desde a suavidade à sonoridade agressiva e penetrante. Novos instrumentos foram até criados, como as tubas wagnerianas, que permitiam efeitos fantásticos em algumas passagens.


Richard Wagner estabeleceu normas essenciais para a interpretação de seus dramas líricos. E foi por desconhecimento dessas regras que as primeiras representações de suas óperas fracassaram em quase todos os países do mundo. Além disso, o público não estava preparado para assimilar essa nova forma de expressão musical, na qual diversos fatores culturais intervêm na sua feitura e interpretação. A orquestra é a sua linguagem natural e dava às suas músicas um colorido especial que, infelizmente, não consegue ser reproduzido nas transcrições para piano.


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