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O Avô de Helena

Atualizado: Abr 17

Então, era assim que terminava. Jamais imaginou um momento tão vazio.


Vazio não era uma palavra adequada, pois sentia-se cheio. Cheio de ódio, amargura, rancor. Também uma loucura iminente espreitava a oportunidade de permear sua alma dilacerada.


Parecia ingrato, a partir de considerações superficiais, que uma avalanche de sentimentos ruins aflorasse logo agora, ante o término de uma história que se arrastava desde o dia do seu nascimento. Mas sabia que nunca fora aceito naquele coração denso. Tal certeza se justificava pelos termos que lera, claros feito água da fonte: não ficaria com nada; já Helena, com tudo. A sem graça, sem beleza, sem talento. A agora rica e em breve cobiçada Helena.


Esperou durante anos para pôr as mãos em cada tostão da herança, era o único jeito de conseguir reerguer suas finanças sem precisar utilizar-se de meios obscuros. Mas descobriu que não teria um único centavo a sua disposição. Helena, pelo contrário, desfrutaria de todas as benesses que uma fortuna trazia ao seu possuidor. Andaria de cabeça erguida pelas ruas, ostentando uma riqueza que não lhe pertencia por direito. Para ela, o destino se desenhava como uma aquarela fluida e multicolorida; para ele, não mais que um rabisco torpe a nanquim.


O responsável por sua ruína permanecia ali, imóvel, diante de seus olhos. Ao menos o que dele persistia. Apenas restos mortais. Nem um sinal de dor ou remorso simulado pairava em seu semblante endurecido. Com muita destreza, o velho guardara as últimas gotas de maldade no fundo do pote, para humilhá-lo um pouco mais depois que estivesse morto. Conseguia até ouvir suas gargalhadas enquanto ardia nas labaredas do incognoscível.


Era fundamental agir com urgência e sagacidade. Para tal, só lhe restava uma alternativa e iria praticar seu crime agora mesmo. Tomou a folha de papel numa das mãos e com a outra pegou a vela que acendera com o fósforo.

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Absolutamente perplexos. Assim permaneceram os cinco rostos que adentraram correndo a sala reservada ao velório.


Ninguém quis se arriscar a emitir opinião sobre o que viam, tanto era o horror embargado em suas gargantas. Nada poderia explicar tamanha calamidade. O candelabro manchado de sangue era a prova inegável de que um ato de extrema violência havia sido praticado.


– Temos que chamar a polícia. E rápido.


– Mas como vamos explicar ISSO? – retrucou uma voz esganiçada.


– Não veem que é exatamente por ISSO que devemos comunicar o ocorrido o quanto antes? Em quem vocês acham que as suspeitas recairão? Quem serão os acusados de terem praticado este ato insano?


– ... Nós?


– É claro que sim! E quem mais?


– Mas sabemos que não foi nenhum dos cinco que estavam aqui fora.


– Sim, disso temos certeza. Só pode ter sido uma sexta pessoa.


– Podemos pensar em suicídio?


– Suicídio!?... oh, ISSO te parece um suicídio? Não, esta é a última opção que se poderia imaginar.


– Então, quem? Quem seria a sexta pessoa, e por onde ela entrou? E por quê? Fale, pelo amor de Deus!


Fez-se um silêncio sufocante, condizente com a atmosfera do local, até que um dedo trêmulo apontou para o caixão.


A cena era macabra, mas inquestionável:


Aos pés do grupo, jazia o corpo do homem atacado brutalmente na cabeça com um candelabro. Ao lado dele, uma folha de papel chamuscada numa das pontas, intitulada Testamento. Neste declarava-se a posse de todos os bens em favor de Helena – neta do homem morto dentro do caixão, filha do outro homem morto sobre o assoalho –, sendo vetada a hipótese de contestação do documento.


Havia sangue nas mãos do avô de Helena, e as flores que antes cobriam seu corpo sem vida estavam agora todas espalhadas sobre o tapete.


Autoria de Fátima Kneipp


Sobre a autora

Fátima Kneipp é redatora, escritora e artista visual.

Instagram @fatimakneipp

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