Faça sol ou faça tempestade, de Adão Ventura
- Arte Ao Redor

- há 2 dias
- 2 min de leitura
Adão Ventura nasceu em 1939, em Santo Antônio do Itambé, então distrito do Serro, na região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Levou para a poesia uma voz de pedra seca, memória de terra batida e ferida aberta pelo racismo brasileiro. Formado em Direito pela UFMG, trabalhou no Suplemento Literário de Minas Gerais, foi professor convidado nos Estados Unidos e encontrou em A cor da pele um ponto de enfrentamento: a palavra ali não enfeita a dor negra para torná-la aceitável.
Em seus poemas, a pele nunca é simples aparência. Ela guarda uma história que o país tenta empurrar para baixo do tapete, ou para debaixo das igrejas, das praças, dos discursos cordiais. O corpo negro, em Adão Ventura, aparece cercado por muros antigos, mesmo quando esses muros já não se apresentam com o nome de escravidão. Seus versos são curtos, mas pesam. Não pedem permissão ao leitor.
“Faça sol ou faça tempestade” trabalha com essa insistência. A repetição volta como marca, quase como batida de enxada em chão duro. O poema não explica o racismo, mas mostra o corpo atingido por ele. Faça sol, faça tempestade, a pele negra permanece como abrigo e cerco, proteção e condenação social.
Faça sol ou faça tempestade
(Adão Ventura)
faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.
faça sol ou faça tempestade
meu corpo é cercado
por estes muros altos,
— currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.
faça sol
ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.
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