• Luiza Pessôa

Dança e Autoconhecimento

Atualizado: 26 de Ago de 2020

A dança pode ser um instrumento de conexão com nossos movimentos mais internos na medida em que intensifica o contato consciente com o corpo.
imagem de uma moça de perfil em movimento. imagem desfocada no fundo branco

A dança primitiva nasce de forma espontânea nas sociedades humanas. Muito antes de ser uma arte cênica, é um modo natural de expressão do homem. A dança pode ter um caráter ritualístico, social, artístico, sagrado ou meditativo. Perceba-se, nas palavras de Bernhard Wosien, a dança como característica natural do homem e de sua interação com o mundo:

[...] quando surgimos no espaço e nele nos movimentamos, temos que dar passos. A escola de dança é a escola do caminhar. O fluxo contínuo da corrente do tempo recebe através do contato do pé de um compasso. Através dos passos determinados uma medida de tempo e ao mesmo tempo uma medida no espaço. O passo torna-se mensurável, de acordo com a música, o ato da dança no espaço e no tempo, vivenciável e possível de ser repetido. O nosso pensamento aprende com o pé a acertar o passo, e assim construímos uma coluna entre o céu e a terra. (WOSIEN, 2000)

Este artigo dedica-se à dimensão de autoconhecimento da dança. A existência do homem é corporal, toda sua relação com o mundo se estabelece a partir do corpo e através do movimento. Mesmo quando o corpo parece inerte, o movimento não para. Ele está presente na respiração, no fluxo sanguíneo, no fluxo energético e assim por diante. A dança pode ser um instrumento de conexão com nossos movimentos mais internos na medida em que intensifica o contato consciente com o corpo. Uma forma de autoconhecimento, de perceber os fluxos internos e expressá-los externamente.


Quando o corpo se entrega ao movimento através da dança, de uma forma mais espontânea, é possível experimentar conexões profundas entre corpo, mente, espírito e emoções. Dançar pode ser uma maneira de conectar o que está dentro com o que está fora. E, em um mergulho mais profundo, até mesmo transcender essa divisão.


A dança movimenta a energia individual, acessa emoções fixadas no corpo e estimula a liberação muscular e, consequentemente, energética e emocional. Através da dança, o corpo, condicionado por padrões de movimentos aprendidos ou impostos, pode descobrir novas possibilidades de mover-se.


A mentalidade construída a partir da pós-modernidade valoriza a produtividade, o “fazer” sobre o “pensar” ou o “sentir”. Quando nossos movimentos são automatizados não é preciso pensar sobre eles. E cada vez somos levados a pensar menos, a sentir menos e a apenas executar os movimentos que nos são impostos pelo nosso modo de vida. Através da dança, o corpo pode aumentar seu vocabulário de movimentos e, consequentemente, ampliar sua capacidade de perceber o mundo, de exprimir-se, de pensar e de agir.


Dança e autoconhecimento podem ligar-se por caminhos e objetivos diferentes, funcionando tanto para o indivíduo, que busca na dança uma atividade de autoconhecimento, quanto para o profissional da dança, que busca no autoconhecimento, através do movimento, uma forma de investigar sua identidade artística. Nas palavras de Maria Aparecida Linhares dos Santos, em sua pesquisa sobre o autoconhecimento como fundamento para a dança-educação, lemos:

“Propomos um trabalho que possibilite ao aluno, no processo pré-expressivo – o aprender a aprender que transcenda a própria arte da dança, envolvendo os vários comportamentos do Ser-Dançarino. Trabalhar com o próprio corpo como instrumento, principalmente na arte da dança, requer o autoconhecimento como fator fundante da arte”. (CIDA LINHARES, 2006)

Como disse Klauss Vianna, grande mestre da dança e responsável pela difusão das técnicas de consciência corporal no Brasil: “dançar é estar inteiro”.


Referências:

WOSIEN, Bernhard. Dança: Um Caminho para a Totalidade. São Paulo: Triom, 2000.

Santos-Silva, Cida Linhares. Sentir, criar, dançar: o autoconhecimento como base para a dança-educação . 2006.


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