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Ameaça

Atualizado: Mai 19

— Eu te dou meu coração — ressaltou Fred, de joelhos e com os olhos encharcados de melancolia. — Não sei viver sem você.


Vanessa não se reconhecia mais no espelho. O brilho, que lhe era tão característico, estava apagado. Sem alegria e sem vigor. Esgotada pelas inúmeras crises infundadas de ciúmes por parte do noivo, não via outra solução que não fosse um afastamento definitivo.


— Acabou.


Uma única palavra para sentença tão dura. Sozinho no silêncio da sala, ele sentiu na pele a dor do abandono. A falta de ar e a garrafa de bebida como companhia. A cada gole, nova lembrança aparecia na mente. O piquenique no parque, os beijos no cinema, os almoços de domingo.


Reviu fotos e vídeos antigos na tela do celular. Um romance de filme. Quatro anos juntos de pura felicidade. Não podia se conformar com o término abrupto sem um motivo que fosse capaz de convencê-lo a aceitar.


— O que você está escondendo? — indagou a si próprio ressabiado enquanto pesquisava os últimos perfis adicionados nas redes sociais da moça. Fuçou a página de todos os contatos masculinos que encontrava, embriagado de ira e descontrole.


— Quem é esse Caio comentando seus posts?


Arremessou a garrafa contra a parede, em uma explosão ensandecida de fúria. Os cacos de vidro se espalharam sobre o carpete. Criou milhares de hipóteses em sua cabeça doentia. Andando para lá e para cá, imaginou-se sendo motivo de chacota nas rodinhas dos amigos em comum.


— Estão todos contra mim — constatou aos prantos tentando se manter em pé. — Um grande complô para me derrubar.


Pegou as chaves do carro e saiu da garagem do prédio em disparada. O porteiro tentou impedi-lo ao constatar o estado de embriaguez, mas não pôde fazê-lo. Fred pisou fundo no acelerador e quase o atropelou de propósito.


Imaginou que ela pudesse ter ido para a casa da prima. Sabia o quanto eram ligadas desde pequenas.


— Te avisei que aquela garota não era boa influência — expôs contrariado aos quatro ventos. Apanhou mais uma garrafa no porta-luvas e uma caixa de sapato no banco traseiro. Retirou uma faca afiada de dentro dela e encarou-a sem receio.


— Se for preciso, não hesitarei em usá-la.


Encostou o automóvel a alguns metros de distância. Escondeu-se atrás de uma árvore no lado oposto da rua e aguardou por quase meia hora. Ficou de butuca em qualquer movimentação que julgasse suspeita. A luz do quarto estava acesa, mas não dava para enxergar quase nada.


Um pouco depois, um veículo prata estacionou diante do imóvel. Desconfiado, foi um choque quando presenciou o sujeito da internet se materializando com uma camisa engomada e um ramo de flores vermelhas na mão.


— Eu mato esse desgraçado — balbuciou enfurecido.


Para piorar, foi Vanessa quem atendeu a porta. Um abraço apertado e uma intimidade incomum com alguém que jamais sequer ouviu falar. Sua vontade era trucidar o possível casal em pedacinhos.


Ela o recebeu com excesso de simpatia e o convidou para entrar. Fred permaneceu escondido, sem forças para brigar. Tinha certeza sobre o que aconteceria nas próximas horas. Uma noite tórrida entre Caio e sua noiva. Ela se despindo faceira para satisfazer o ímpeto sexual de outro alguém.


— Isso não vai ficar assim — suspendeu os ombros decidido com a faca em punhos.


Enquanto isso, Vanessa e Caio caminhavam pelo jardim da casa à luz da lua. Sem jeito, sorriam mutuamente em harmonia.


— Como está se sentindo? — preocupou-se.


— Ah, sabe como é. Nenhum término é fácil.


— Ainda sente alguma coisa?


— Sempre vou amá-lo — revelou, contendo as lágrimas e escondendo o resquício de um hematoma sobre o olho. — Mas ele já extrapolou todos os limites.


— Vai encontrar alguém melhor.


— Sinceramente, não estou nem pensando nisso por enquanto.


— Dê um tempo para você.


— Minha distração do momento é ajudá-lo.


— Nunca poderei agradecê-la o suficiente pelo o que está fazendo por mim. Eu estou completamente apaixonado pela sua prima.


— Vou convencê-la a te dar uma chance.


Uma caixa de sapato foi arremessada no jardim por cima do muro e ouviu-se um barulho vindo da rua.


— O que é isso? — assustou-se a menina.


— Vamos lá ver.


Havia um papelzinho colado, sujo e amassado, escrito às pressas com os dizeres “Eu avisei”.


Trêmula, Vanessa apanhou a caixa apavorada. Reconheceu a caligrafia no bilhete. Abriu-a e deparou-se com o maior pesadelo de sua vida. Fred lhe presenteou com o coração.


Autoria de Cadu Mohrstedt


Sobre o autor


Cadu Mohrstedt, 30 anos, petropolitano. Formado em Direito e em Jornalismo. Cursando pós-graduação em Escrita Criativa. Realizou curso de roteiro na Academia Internacional de Cinema. Autor de dois livros de poemas autopublicados. Premiado em concursos de poesia, trova e conto.

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